domingo, outubro 19, 2003
JÁ ABRIU
sexta-feira, outubro 17, 2003
MUDANÇA DE SERVIDOR
Este blogue está em processo de tranferência de servidor. O novo endereço é http://geopolitica.weblog.com.pt/, desta vez já com o "o" que faltava.
Espero que esta mudança traga uma maior qualidade ao meu modesto blogue. Para inaugurar o novo endereço vou publicar uma posta sobre os meios de comunicação russos e as alterações sofridas desde a queda da URSSS até à ascenção e consolidação do poder do Czar Putin.
terça-feira, outubro 14, 2003
SURPRESA
Foi com agradável surpresa que descobri há pouco que voltei a ter acesso ao Blogger a partir de casa. Será que é desta que vou passar a fazer postas mais frequentes e actualizar os links? Infelizmente, não me parece que isso aconteça hoje pois touxe a bit of work home. Maybe tomorrow, who knows?
BOAS NOTÍCIAS
Esquerda Israelita Faz Acordo com Palestinianos
Por JORGE ALMEIDA FERNANDES
Terça-feira, 14 de Outubro de 2003
Figuras da esquerda israelita negociaram durante o fim-de-semana, na Jordânia, um "pacto de paz" com personalidades palestinianas, foi ontem anunciado em Jerusalém. Israel retirar-se-ia para as fronteiras de 1967, os palestinianos eliminariam o terrorismo e desistiriam do direito retorno em troca da soberania sobre Jerusalém Oriental. A direita ficou furiosa. E também trabalhistas, como o ex-primeiro-ministro Ehud Barak, condenaram o acordo.
O texto, que se inspira na plataforma de Taba, a derradeira negociação israelo-palestiniana, em 2001, antes da vitória eleitoral de Ariel Sharon, é produto de dois anos de conversações e será assinado em Genebra, no dia 4 de Novembro, oitavo aniversário do assassínio do antigo primeiro-ministro Yitzhak Rabin por um fanático judeu. Servirá de base para enérgicas campanhas de mobilização da opinião pública.
Entre os cerca de 50 políticos, intelectuais e pacifistas que se reuniram num hotel jordano do Mar Morto, com mediadores suíços, há personalidades de grande prestígio. A delegação israelita foi presidida pelo antigo ministro Yossi Beilin (ex-trabalhista) e incluía figuras como Amram Mitzna, ex-líder trabalhista, Avraham Burg, ex-presidente do Knesset (parlamento), o escritor Amos Oz, ou o antigo chefe do Estado-Maior Amnon Lipkin-Shahak. Da delegação palestiniana, faziam parte os antigos ministros Yasser Abed Rabbo, Abdel Raziq, Nabil Kassis, e dois dirigentes da Fatah, membros da Tanzim, Kadoura Fares e Mohammed Khourani.
"O campo da paz tem agora uma agenda", declarou Amram Mitzna. Mas reconheceu: "Concluímos a parte fácil; agora vem a parte dura, regressar a Israel, bater a todas as portas e convencer o público." Amos Oz estava optimista: "O que hoje fizemos determinará o futuro."
Para Abed Rabbo, este texto "é o princípio de uma nova era". Khourani, ligado a um sector da Fatah que teve um papel dirigente na eclosão da Intifada armada, comentou: "Compreendemos que Israel nos pode derrotar por meios militares, mas também compreendemos que se não podemos derrotar Israel a solução tem de ser política." Mas Abdel Raziq pôs em causa o entendimento da renúncia ao direito de retorno.
Simplesmente "virtual"
A Autoridade Palestiniana apoiará o "Acordo de Genebra", afirmou Abed Rabbo. O Governo israelita condenou imediatamente a iniciativa.
"Há um Governo em Israel e é o único que trata destas matérias, tudo o resto é virtual", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Silvan Shalom. Seria recomeçar "a loucura de Oslo". Para a ministra da Educação, Limor Livnat, o pacto faz o jogo de Arafat.
Entre os trabalhistas, Shimon Peres, que não quis participar, fugiu à questão. Mas Ehud Barak condenou abertamente este "peculiar acordo (...) que fere os interesses do Estado de Israel."
Qual a eficácia de uma proposta feita por homens sem poder, por correntes que estão na sua fase mais deprimente? O campo da paz israelita está dividido e em silêncio. A sua esperança é que a maioria dos israelitas, ao mesmo tempo que apoia Sharon contra o terrorismo, permanece favorável ao princípio da troca da paz por território.
No outro campo, o panorama é ainda pior. A Autoridade Palestiniana está em acelerada decomposição e os realistas perdem terreno para os islamistas radicais.
Isto acontece no momento político em que a catástrofe se divisa no horizonte. Os acordos de Camp David, de 1993, estão mortos há anos. O "roteiro de paz" fracassou. E os Estados Unidos, única potência com força e legitimidade (são o protector de Israel) para impor a paz, preparam-se para relegar para segundo plano o conflito israelo-palestiniano.
Em Israel, o sucesso da iniciativa será medido pela capacidade de impor esta plataforma ao Partido Trabalhista. Na Palestina, passa pela afirmação das correntes que querem pôr um ponto final na Intifada armada e que se encontram sob a pressão dos radicais, fundamentalistas ou laicos. Só nestas condições poderão convencer Washington da virtualidade da proposta, a que Ariel Sharon se oporá por todos os meios.
Os Pontos Básicos do Compromisso
Terça-feira, 14 de Outubro de 2003
- Os palestinianos reconhecem Israel enquanto Estado do povo judaico, o qual, por sua vez, se retiraria para as suas fronteiras de 1967, devendo ser negociadas uma ou duas pequenas trocas de território.
- Os palestinianos desistem do direito de retorno dos refugiados das várias guerras. Um pequeno número seria autorizado a regressar. Outros receberiam uma indemnização.
- Jerusalém seria dividida administrativamente mas não fisicamente. Jerusalém Oriental faria parte do território palestiniano. O mais sensível local - o Monte do Templo para os judeus ou Haram al-Sharif (Nobre Santuário) para os muçulmanos - também permaneceria sob soberania palestiniana. Uma força internacional garantia o acesso aos visitantes. Os israelitas manteriam a posse do Muro Ocidental ou das Lamentações.
- Israel conservaria alguns colonatos, especialmente em volta de Jerusalém. Mas o grande colonato de Ariel ficaria incluído na área palestiniana.
- Os palestinianos comprometem-se a prevenir o terrorismo e a desarmar as todas as milícias.
- O Estado palestiniano seria desmilitarizado.
- Este acordo substitui as anteriores resoluções da ONU.
Infelizmente as boas notícias não passam disso: notícias e não actos. Neste momento, o meu pessimismo em relação à situação política no mundo agrava-se de dia para dia. No entanto, há sempre pequenos passos que nos fazem manter a esperança.
segunda-feira, outubro 13, 2003
I'M BACK
(Sort of...)
Pois é, os problemas com o acesso ao blogger e outros sites continuam, daí que o blogue ande um bocado desactualizado. Espero resolver este problema o mais rápido possível.
sexta-feira, outubro 10, 2003
JÁ HÁ REACÇÕES
Shirin Ebadi "estupefacta" com Nobel da Paz que Lech Walesa vê como "grande erro"
A advogada iraniana Shirin Ebadi, galardoada sexta-feira com o Nobel da Paz 2003, mostrou-se "estupefacta" com a distinção, que motivou a reacção negativa do ex-presidente polaco Lech Walesa, distinguido com o mesmo prémio em 1983.
Shirin Ebadi, que se tornou na primeira mulher muçulmana a ser galardoada com um Nobel, garantiu que o prémio "não alterará muito" a sua vida, mas "será muito importante" para o trabalho que desenvolve a favor dos direitos humanos.
Ebadi, professora de direito na Universidade de Teerão, disse ainda que o prémio pertence a "todos os que se batem pela democracia e pela paz no Irão".
Reagindo à atribuição do Nobel, Lech Walesa qualificou como "grande erro" a atribuição do prémio deste ano à activista iraniana, defendendo que o galardoado deveria ter sido o papa João Paulo II.
"Não tenho nada contra essa senhora, mas, se há alguém no mundo que merece essa distinção, é certamente o Santo Padre", disse Walesa em declarações a um canal de televisão polaco.
Opinião diferente foi manifestada por um outro Nobel da Paz. O bispo Dili, D. Ximenes Belo, distinguido em 1996, congratulou-se com distinção e espera que o prémio "sirva para que nunca nos esqueçamos que é preciso lutar pelos direitos e emancipação das mulheres".
A presidente do Conselho Português para os Refugiados (CPR) considerou que a atribuição do prémio a Shirin Ebadi "é um momento de grande regozijo".
Teresa Tito de Morais manifestou esperança de que o galardão, ao premiar uma "lutadora" pelos direitos dos cidadãos, entre eles os refugiados, possa chamar a atenção da comunidade internacional para "acabar com o egoísmo e esquecimento" a que tem votado os dramas humanitários em todo o mundo.
Também a directora da secção portuguesa da Amnistia Internacional (AI) se mostrou satisfeita, considerando que este "reconhece o trabalho árduo de uma defensora dos direitos humanos numa região regida por leis que discriminam as mulheres e todos os que fazem da liberdade de expressão um estandarte".
Lusa/fim
NOBEL DA PAZ PARA SHIRIN EBADI
Deixo-vos aqui o press do Comité:
The Nobel Peace Prize 2003
The Norwegian Nobel Committee has decided to award the Nobel Peace Prize for 2003 to Shirin Ebadi for her efforts for democracy and human rights. She has focused especially on the struggle for the rights of women and children.
As a lawyer, judge, lecturer, writer and activist, she has spoken out clearly and strongly in her country, Iran, and far beyond its borders. She has stood up as a sound professional, a courageous person, and has never heeded the threats to her own safety.
Her principal arena is the struggle for basic human rights, and no society deserves to be labelled civilized unless the rights of women and children are respected. In an era of violence, she has consistently supported non-violence. It is fundamental to her view that the supreme political power in a community must be built on democratic elections. She favours enlightenment and dialogue as the best path to changing attitudes and resolving conflict.
Ebadi is a conscious Moslem. She sees no conflict between Islam and fundamental human rights. It is important to her that the dialogue between the different cultures and religions of the world should take as its point of departure their shared values. It is a pleasure for the Norwegian Nobel Committee to award the Peace Prize to a woman who is part of the Moslem world, and of whom that world can be proud - along with all who fight for human rights wherever they live.
During recent decades, democracy and human rights have advanced in various parts of the world. By its awards of the Nobel Peace Prize, the Norwegian Nobel Committee has attempted to speed up this process.
We hope that the people of Iran will feel joyous that for the first time in history one of their citizens has been awarded the Nobel Peace Prize, and we hope the Prize will be an inspiration for all those who struggle for human rights and democracy in her country, in the Moslem world, and in all countries where the fight for human rights needs inspiration and support.
Oslo, 10 October 2003
quinta-feira, outubro 09, 2003
OS MEDIA E AS PERCEPÇÕES SOBRE A GUERRA NO IRAQUE
Através do Jornalismo e Comunicação.
Foi há dias publicado o estudo Misperceptions, the Media and the Irak War, elaborado pelo Center on Policy Attitudes e o Center for International and Security Studies da Universidade de Maryland (EUA), em colaboração com a empresa de sondagens Knowledge Networks.
Na leitura deste documento, feita por Jim Lobe, da agência Inter Press Service, "the more commercial television news you watch, the more wrong you are likely to be about key elements of the Iraq War and its aftermath (...). And the more you watch the Rupert Murdoch-owned Fox News channel, in particular, the more likely it is that your perceptions about the war are wrong". (Manuel Pinto)
MAIS STRAFFOR
Não tenho tido muito tempo para dedicar ao blogue, mas espero, mesmo assim, deixar-vos sempre alguma coisa para lerem.
Lições da Guerra do Yom Kippur ou do Ramadão
Summary
The 1973 Arab-Israeli War redefined the Arab-Israeli conflict, the shape of the Arab world and the international economic order -- given that the war triggered the Arab oil embargo. It was a significant event in 20th century history. Its origins were in Israel's victory in 1967 and its overconfidence about its ability to read the Arab mind. Like the Sept. 11 attacks, Oct. 6, 1973, began as a massive intelligence failure. Moreover, the Israeli intelligence failure shaped Arab thinking about the nature of war and the role of intelligence in it. They learned that managing the enemy's intelligence process compensated for military weakness. It is a lesson that is still very much with us. (continua aqui)
quarta-feira, outubro 08, 2003
GRITO DE REVOLTA
Depois de ter lido isto, através dos abutres, não resisto a publicar esta carta na íntegra, antes que desapareça.
Expliquem-me, Caramba (1)
Por A. CARVALHO LISBOA
Domingo, 05 de Outubro de 2003
Sábios do meu país
1. Para que servem os caças, os blindados e as fragatas em segunda mão que os nossos governantes agora vão comprar para as forças armadas portuguesas, quando não há helicópteros de salvamento de náufragos, nem aviões de combate aos incêndios, nem lanchas mais rápidas do que as dos negociantes das drogas, nem rebocadores de alto mar para acudir aos habituais naufrágios nas nossas costas, nem equipamento adequado para combater as marés negras?
2. E os submarinos, senhores, que vão custar mil milhões de euros? Como é que vão ser decisivos na luta contra o tráfico das drogas? São cópia aperfeiçoada do "marplano" que, há 65 anos, me maravilhava nas páginas de "O Mosquito"? Isto é, são submarinos que se podem transformar rapidamente em lanchas ultra-rápidas ou até em aviões supersónicos?
3. Para que servem, quantos são e quanto custam os elementos das nossas forças armadas, agora que não há colónias a defender, os espanhóis já nos conquistaram sem dar um tiro e os terroristas incendiários parecem ser os nossos únicos inimigos declarados?
4. E porque é que os bombeiros hão-de ser "voluntários"? E sofrer fome e sede e exaustão no apagar dos incêndios florestais? Não é o combate aos fogos uma batalha todos os anos travada? Porque é que as nossas forças armadas não fornecem, nesta verdadeira guerra, cobertura logística de comunicações, transporte e alimentação aos "soldados da paz"? E porque é que aos bombeiros portugueses se pede para serem heróis e ninguém se preocupa se são eficazes e eficientes?
5. Porque é que os soldados do RI de Abrantes saíram só com "espanadores" para apagar as labaredas que chegaram a lamber os muros do seu quartel? Nos quartéis portugueses não há mais nada para combater fogos?
Mas os fogos estão a acabar. Para o ano há mais. Mudemos de assunto.
6. Afinal para que é que vai servir a barragem do Alqueva?
7. E porque é que o Aeroporto de Lisboa há-de ser na Ota e não em Rio Frio, ou em Alverca, ou no Montijo, ou ficar em Lisboa até atingir realmente a saturação?
8. Quantos minutos se ganham num TGV de Lisboa ao Porto, ou mesmo do Porto ao Algarve, em relação a um comboio pendular? Quais os custos previstos das infra-estruturas e equipamento? Quais as receitas previstas e despesas prováveis na exploração da sua rede? Onde se irão buscar os "milhões" necessários, se a renovação da rede ferroviária tradicional está engasgada por falta de dinheiro e nem há "tostões" para conservar e reparar as estradas e as pontes e os viadutos, que teimam em cair, ou eliminar as passagens de nível que teimam em matar?
9. E porque é que a Ponte Vasco da Gama não ligou Chelas ao Barreiro?
10. Quem vai suportar a exploração dos campos de futebol de luxo gerados pelo Euro 2004? Os clubes? As câmaras? O Orçamento do Estado? Não liguem a esta pergunta, a resposta é óbvia...
11. Porque é que o Ministério da Saúde não se chama "Ministério da Doença e dos Medicamentos", já que a grande preocupação de todos é a eficiência dos serviços médicos, a rapidez e rentabilidade das operações de cirurgia e o consumo e preço dos remédios, quase ninguém se preocupando em ensinar aos portugueses os mecanismos da degradação pelas drogas e como evitá-las, nem a fazer exercício físico e a comer racionalmente para ter mais saúde? Porque é que as estações de rádio e televisão de "serviço público" não chamam a si essa missão, sabendo-se hoje, sem sombra de dúvidas, que o homem é, principalmente, aquilo que come? Porque não se incentiva a criação de restaurantes com alimentação racional? E qual a razão para os produtos dietéticos não poderem trazer nas suas embalagens a indicação dos fins a que se destinam?
12. E, se há tanta falta de médicos, porque é que se continua a restringir o acesso aos cursos de Medicina, com notas mínimas de admissão escandalosamente altas? E porque não abranger no Serviço Nacional de Saúde os técnicos das medicinas alternativas, com habilitações e competências devidamente comprovadas?
13. E porque é que se mudam os programas do ensino, sem se perguntar ao povo iletrado, sereno, mas não estúpido, e ao povo letrado acomodado e da "res publica" desinteressado, o que é que lhe fez falta na vida e gostaria de ter aprendido na escola?
Por favor, respondam-me.
Estou com 75 anos, mas ainda não fui apanhado a guiar em contramão. Não gostaria de morrer a pensar que Portugal nada mais é do que um povo pindérico de parolos permissivos, um país de pedófilos, pirómanos, pécoras, prostitutos, pederastas, proxenetas, passadores e pedinchas preguiçosos, um país de porcinas porcarias pestilentas, de permitidos peculatos e de pasquins pantomineiros com parangonas; um país pobre, porque posto de pantanas por pseudopolíticos, pernósticos, promitentes, perdulários, promíscuos e pedantes.
(1) Versão, presidencial, do "porra" lusitano e plebeu
terça-feira, outubro 07, 2003
TEREI IDADE PARA SER AVÔZINHO?
Agradeço ao RC do Pano do Pó sobre estas palavras.
Mas agora dizer que eu lhe faço lembrar um professor que era como que um avô que ele gostaria de ter tido...
Sabes que idade tenho?
< O PAPA, REAGEN E O IMPÉRIO DO MAL
Segundo Pacheco Pereira, o Papa é um dos homens de estado com maior influência na história do século XX, e, junto com Reagan, acabou com o império soviético.
Apesar de concordar com JPP com a sua posição sobre a não resignação de João Paulo II, penso que este comentário sobre a responsabilidade do Papa e de Reagen na queda da União Soviética cai no género de emissão de juízos simplistas que Pacheco Pereira tanto critica.
É certo que ambos foram dos mais acérrimos adversários do comunismo mas, como JPP bem deve saber, a principal razão para este colapso foi de ordem interna.
Não me vou alongar muito nas explicações, mas posso adiantar que elas foram sobretudo de ordem económica, com a estagnação da economia, devido à quebra das receitas petrolíferas, à excessiva canalização de fundos para a indústria do armamento em detrimento de outros sectores e, é claro, ao próprio sistema económico (comunismo).
Ainda em termos económicos, a excessiva ajuda (militar, tecnológica e financeira) aos países do Terceiro-Mundo, do Bloco de Leste e afins e das restantes repúblicas soviéticas, bem como dos gastos com a Guerra no Afeganistão, agravaram de sobremaneira as finanças russas. Aqui podemos falar do papel americano, devido à corrida ao armamento, que levou os russos a irem além das suas possibilidades, e à ajuda americana à resistência afegã.
A nível político, depois de Krutchev, a URSS entrou em franco declínio. A ascensão de Gorbatchev representou uma lufada de ar fresco, permitindo um desanuviamento do regime através das políticas de perestroika e glasnot. Como se sabe, Gorbi falhou ao pensar que o regime se conseguia reformar. As várias nacionalidades, tanto as que constituíam a URSS, como as que constituíam a Rússia, despoletaram um movimento reivindicativo, cujo curso se pode assemelhar a uma imensa bola de neve e cujas consequências ainda hoje se fazem sentir, em especial no Cáucaso e na Ásia Central.
VOLTEI
Tive alguns problemas com o acesso ao blogger, mas agora estou de volta. Parece que alguém não gostou muito do que escrevi e tentou sabotar o meu acesso...
É claro que estou a brincar.
No entanto, existe a possibilidade de acontecimentos desta ordem terem lugar. Vários governos, entre eles o americano e o russo, obrigam as empresas de software a deixarem uma porta de entrada que possibilite que os mails (além de chamadas telefónicas) sejam espiados. Este sistema (o americano, com a colaboração do Reino Unido, Canadá e Austrália), desiganado por Echelon, permite processar milhões de mensagens num minuto.
Apesar de os americanos garantirem que é usado apenas no combate ao crime e terrorismo internacional, existem fortes suspeitas que também seja utilizado para espionagem industrial.
Sobre este assunto de extrema gravidade, tanto no mundo ocidental, como na Rússia, escreverei mais lá para a frente (vou juntar à lista do que está por postar).
sexta-feira, outubro 03, 2003
CAN YOU HEAR ME, MAJOR TOM?
A nave desta formiga perdeu-se no espaço and there's nothing I can do.
PREPAREM-SE PARA ALGO EM GRANDE
Comecei finalmente a escrever O Artigo. Trata-se de uma análise sobre as mudanças de índole geostratégica e geopolítica que tiveram lugar a partir da Queda do Muro de Berlim e da desintegração da União Soviética, passando pelas guerras na Somália, nos Balcãs, no Médio Oriente, no Afeganistão, na Tchétchenia, na Ásia Central.
Visa fazer uma análise a uma disputa entre vários países e forças por uma zona nevrálgica do globo, a nova Rimland (*), que engloba basicamente a região do Médio Oriente e da Ásia Central e do confronto pelo acesso e pelos acessos às matérias-primas e recursos naturais fundamentais (petróleo, gás natural e água potável) para o novo século que entretanto se iniciou.
A elaboração deste projecto apresenta-se como um desafio para mim e ao longo dos tempos surgirão vários obstáculos a este empreendimento, pelo que tentarei fazer uma publicação faseada deste artigo.
Se algum tiver alguma sugestão a fazer ou quiser ver esclarecida alguma dúvida, não hesite em contactar-me ou por mail ou através do sistema de comentários no blogue.
(*) O que é o Rimland?
Em 1904, Sir Halford Mackinder publicou um teoria sobre a força política da Eurasia, em que analisava as forças e fraquezas das várias regiões e concluía que o centro da Rússia e as áreas a Leste dele continham o potencial para se tornarem numa potência mundial.
Em 1919 ele reviu a sua teoria de modo a incluir a Europa de Leste, passando a ficar conhecida como a Teoria Mackinder do Heartland.
Princípios básicos:
Quem controlar a Europa de Leste comandará o Heartland
Quem controlar o Heartland comandará a Ilha Mundial (Eurásia e África)
Quem controlar a Ilha Mundial comandará o Mundo.
Em 1942, Nicholas Spykman propôs uma teoria que contrariava a teoria de Mackinder. Spykman afirmava que era o Rimland Euroasiático, e não o Heartland, a chave para controlar a Ilha Mundial.
PAÍS DE BAIXO, PAÍS DE CIMA
Francisco Louçã refere que o caso da filha do MNE mostra "a existência de dois países, um de baixo, que luta e outro, o do poder, que vive de conseguir cunhas".
Infelizmente, é esta a relidade do nosso país...
quinta-feira, outubro 02, 2003
LITERATURA
Sobre o conflito nos Balcãs:
COMO SE EU NÃO EXISTISSE de Slavenka Drakulic, editado em Junho de 2002.
Um livro que nos leva a lugares onde a CNN nunca entrou.
MAIS DOCUMENTOS DESCLASSIFICADOS DOS ARQUIVOS DA NATIONAL SECURITY AGENCY
Sobre o golpe de Pinochet no Chile e o envolvimento americano.
Sobre as relações com a ditadura militar argentina.
The Argentine Generals were "told by U.S. government officials" that Washington was "not serious and committed" to human rights.
Sobre Cuba e os planos de atentados terroristas em território americano para depois culpar Fidel Castro.
Já agora também vos deixo os códigos militares secretos portugueses durante a II Guerra Mundial.
quarta-feira, outubro 01, 2003
SPECIAL REPORT
From Victory to Success: Afterwar Policy in Iraq
Como não tenho tido muito tempo para fazer análises e fazer alguma produção própria no meu blogue, deixo-vos aqui um Special Report sobre o pós-guerra no Iraque, num trabalho do Carnegie Endowment for International Peace e da revista Foreign Policy.
CLIPPING
No Mar Salgado:
"Encontrámos também o Geopolítica, onde algumas opiniões bem estruturadas são emitidas e uma boa selecção de artigos generalistas se encontra".
Obrigado, acho que estou a ficar babado...
DOCUMENTOS DESCLASSIFICADOS SOBRE A INVASÃO DE TIMOR
Aproveitando o espaço dado a Timor Leste, deixo aqui este artigo já de Dezembro de 2001 sobre a implicação do governo americano e a atitude portuguesa em relação à invasão indonésia.
XANANA DÁ ENTREVISTA A BLOGUE
Esta entrevista do Paulo Gorjão é bem ilucidativa da crescente importância dos blogues como meio de comunicação.
Pensador francês Bernard-Henri Lévy questiona "Quem Matou Daniel Pearl?"
Analisar os factos que estiveram na origem da morte do jornalista americano Daniel Pearl, assassinado em 2002 em Carachi, Paquistão, é o objectivo do pensador francês Bernard-Henri Lévy num livro que chega esta semana às livrarias.
"Quem Matou Daniel Pearl?", com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, recorda a história do jornalista do Wall Street Journal, raptado a 23 de Janeiro de 2002 por membros de um grupo que se auto- intitulava Movimento para a Restauração da Soberania Paquistanesa.
Num e-mail enviado para o jornal a 27 de Janeiro, em troca da libertação de Daniel Pearl é exigida a liberdade de prisioneiros taliban e membros da organização Al-Qaeda, de Bin Laden, presos na base naval norte-americana de Guantanamo, em Cuba.
Cerca de um mês depois, a 21 de Fevereiro, o Consulado dos EUA em Carachi recebe um vídeo que mostra Daniel Pearl a ser degolado, após admitir que era judeu, sendo o vídeo considerado prova suficiente da morte do jornalista.
Alertando para os negócios obscuros que se erguem por detrás do fundamentalismo religioso, o filósofo e escritor coloca a hipótese de Pearl ter sido morto porque havia reunido provas de uma ligação entre o «patrão» da bomba nuclear paquistanesa e a Al- Qaeda.
Lusa/Fim
terça-feira, setembro 30, 2003
A ECONOMIA DE MERCADO E A BLOGOSFERA
O barnabé tem uma excelente posta sobre este tema aqui.
Simplesmente imperdível!
NOTÍCIAS DE LITERATURA
Edições ASA reedita a obra completa de Paul Auster.
Depois de já ter editado A Trilogia de Nova Iorque, O Caderno Vermelho, De Mão Para a Boca, Experiências Com a Verdade, O Livro das Ilusões, Lulu on the Bridge e Timbuktu, a ASA vai proceder em Outubro à reedição de Leviathan, estando previsto para 2004 ainda o lançamento de The Invention of Solitude e do mais recente romance do autor, Oracle Night.
“Leviathan é um romance obrigatório, brilhante, uma obra de ficção surpreendentemente original pela mão de um consagrado mestre”, Sunday Telegraph.
Deixo-vos aqui a sinopse da obra:
Por que é que Benjamin Sachs, escritor de talento reconhecido, decide tornar-se bombista?
Após a sua violenta morte, Peter Aaron, amigo de longa data, vai tentar responder a esta pergunta numa história escrita em jeito de biografia, de resposta antecipada ao inquérito do FBI e à voracidade dos media.
Peter embarca numa incrível viagem ao âmago da existência de Benjamin, e o que resulta é um olhar penetrante sobre a vida de um homem excêntrico, altamente dotado e complexo, e a fascinante história do seu legado.
Estamos perante um romance que é ao mesmo tempo divertido e provocador, com constantes reviravoltas na acção.
Leviathan é, antes do mais, um retrato crítico de uma América sem norte, que se renegou a si própria sem se aperceber da perda dos valores que presidiram à sua fundação.
MAIS NOTÍCIAS
Através do T-Zero:
Inquiry call over US agent leak
Prominent members of the opposition Democratic Party in the United States are calling for an independent investigation into new allegations surrounding the case for war in Iraq. ..
Através do Ponto Media:
Are the News Media Soft on Bush?
That much-ballyhooed “liberal press” hasn’t been nearly as tough on President Bush as it was on his predecessor. One key reason: Bush’s controversies have involved policy rather than personal peccadilloes, and the media have a much bigger appetite for the latter. But does the weapons of mass destruction flap presage a shift?
AINDA NO CAPÍTULO DAS EXCELENTES ANÁLISES GEOESTRATÉGICAS
A ler a análise feita por Edgar (jogador do Málaga e antigo jogador do Benfica e Real Madrid) à equipa dos Galáticos, num artigo do meu antigo colega de curso Norberto Lopes.
Só espero que ele tenha razão...
MAIS UMA EXCELENTE ANÁLISE DA STRATFOR
The Unpredictability of War and Force Structure
(...)The defense secretary needs to understand that in war, being surprised is not a failure -- it is the natural commission. The measure of a good command is not that one anticipates everything, but that one quickly adjusts and responds to the unexpected. No one expected this type of guerrilla war in Iraq, although perhaps in retrospect, everyone should have. But it is here, and next year will bring even more surprises. The Army speaks of "A Force of One." We prefer "The Force Ready for the Unexpected." The current U.S. force is not.
segunda-feira, setembro 29, 2003
IS FRANCE RIGHT?
Jacques Chirac was mocked when he tried to stop the war with Iraq. Today the French position looks prescient. A análise na Newsweek.
SERÁ POSSÍVEL?
Saddam refugee killed 'westernised' daughter
ESQUERDA ou DIREITA
Segundo este teste proposto pelo Manuel Alçada no Assembleia, eu sou o Dalai Lama.
A partir de hoje vou obrigar as pessoas a tratarem-me por SUA SANTIDADE.
SEGURANÇA VERSUS DIREITOS CIVIS
Atentados do 11 de Setembro vieram reforçar uma tendência que vinha ganhando cada vez mais força.
Sobre esta quatão deixo aqui dois artigos: um da Maria Teresa Nogueira da Amnistia Internacional no Público; outro de Ignacio Ramonet no Le Monde Diplomatique de Agosto.
domingo, setembro 28, 2003
PEÇO DESCULPAS
Não vou pedir desculpas sobre tudo o que fiz de errado, mas vou pedir desculpa pela posta desta tarde. Estava cheia de erros ortográficos, bastantes gralhas e frases sem aparente sentido. A explicação para isto deve-se à falta de fundos para contratar um revisor e à ressaca da noite passada.
PODEREI EU DESCENDER DA MINHA TIA-AVÓ
Em primeiro lugar peço desculpa pela falta de posts sobre geopolítica. Prometo que em breve dedicarei mais espaço a esta área. Este blogue foi criado para dar uma particular atenção a esta área muito pouco debatida em Portugal.
No entanto, devo reconhecer que aos poucos vou-me deixando controlar pelo espírito bloguísta, isto é, utilizo este espaço para exprimir opiniões e postar sobre o que me vai na cabeça.
Hoje, quando liguei a tv deparei-me com a grande referência de televisão e serviço público de qualidade denominado Domingo É Domingo. Não vi mais do que um minuto. Contudo, esse breve período de tempo fez-me recordar um episódio bastante curioso que assisti à semanas no mesmo programa, num habitual exercício de zapping.
Nesse dia estava lá um convidado com cerca de cinquenta anos. Tinha cabelo escuro comprido e liso - à índio -, uma tez de pele morena - à índio - e um brinco com uma pena - à índio, pois claro! -. Este sujeito (que penso ser uma personalidade mais ou menos conhecida) estava no programa para falar precisamente sobre os índios, mais concretamente para dizer que também ele tinha sangue índio. As provas indesmentíveis residiam no seu aspecto físico - o cabelo comprido, a pele bronzeada pelo Sol (estávamos no pico do Verão) e a pena que trazia consigo desde os tempos em que estava no útero de sua mãe. Mas a prova mais impressionante desta ascendência residia no facto de a sua tia-avó ter tido um caso com um índio!!!
Fiquei na expectativa para ver a reacção dos vários apresentadores. Para minha surpresa ficaram todos siderados e fascinados com tamanho ascendente.
Este misto de admiração e inveja foi crescendo quando este personagem foi fazendo o historial da sua família. Esta família era a mais rica de Espanha há vários séculos e, por um motivo glorioso qualquer (não me lembro qual), veio para Portugal e foi participando activamente em vários episódios ilustres da nossa História (também já não me lembro que episódios foram esses, talvez um dia façam um reposição).
Ou muito me engano, ou temos mais um pretendente ao trono português...
sábado, setembro 27, 2003
PRÉMIO PARA O INCOMPREENDIDO DA SEMANA:
Aproveitando a onda de atribuição de prémios na blogosfera, o GEOPOLITICA decidiu criar o PRÉMIO PARA O INCOMPREENDIDO DA SEMANA.
And the winner is:
Catolico e de Direita.
O júri decidiu atribuir este prestigiadíssimo galardão a Josephuscarolus pelo brilhante e refinado uso da ironia na sua posta Abusos litúrgicos.
Corre pela blogosfera o rumor de que este senhor vai ser a nova aquisição do Gato Fedorento e do suplemento oInimigoPúblico.
Josephuscarolus tem, sem dúvida alguma, um futuro brilhante atrás de si.
OS AMERICANOS TAMBÉM TÊM O SEU CASO KELLY
CIA seeks probe of White House
Agency asks Justice to investigate leak of employee’s identity
WASHINGTON, Sept. 26 — The CIA has asked the Justice Department to investigate allegations that the White House broke federal laws by revealing the identity of one of its undercover employees in retaliation against the woman’s husband, a former ambassador who publicly criticized President Bush’s since-discredited claim that Iraq had sought weapons-grade uranium from Africa, NBC News has learned.
THE FORMER ENVOY, Joseph Wilson, who was acting ambassador to Iraq before the first Gulf War, was dispatched to Niger in 2002 to investigate a British intelligence report that Iraq sought to buy uranium there. Although Wilson discredited the report, Bush cited it in his State of the Union address in January among the evidence he said justified military action in Iraq.
The administration has since had to repudiate the claim. CIA Director George Tenet said the 16-word sentence should not have been included in Bush’s Jan. 28 speech and publicly accepted responsibility for allowing it to remain in the president’s text.
Wilson published an article in July alleging, however, that the White House recklessly made the charge knowing it was false.
“We spend billions of dollars on intelligence,” Wilson wrote. “But we end up putting something in the State of the Union address, something we got from another intelligence agency, something we cannot independently verify, in an area of Africa where the British have no on-the-ground presence.”
WHITE HOUSE DENIALS
The next week, columnist Robert Novak published an article in which he revealed that Wilson’s wife, Valerie Plame, was a covert CIA operative specializing in weapons of mass destruction. “Two senior administration officials told me Wilson’s wife suggested sending him to Niger to investigate,” Novak wrote.
The White House has denied being Novak’s source, whom he has refused to identify. But Wilson has said other reporters have told him White House officials leaked Plame’s identity.
NBC News’ Andrea Mitchell reported Friday night that the CIA has asked the Justice Department to investigate whether White House officials blew Plame’s cover in retaliation against Wilson. Revealing the identities of covert officials is a violation of two laws, the National Agents’ Identity Act and the Unauthorized Release of Classified Information Act.
ATTEMPTS TO REMOVE CLAIM
When the Niger claim first arose, in February 2002, the CIA sent Wilson to Africa to investigate. He reported finding no credible evidence that Iraq was seeking uranium from Niger.
The CIA’s doubts about the uranium claim were reported through routine intelligence traffic throughout the government, U.S. intelligence officials said. Those doubts were also reported to the British.
The Niger report included a notation that it was unconfirmed when it was published in the October 2002 National Intelligence Estimate, the classified summary of intelligence on Iraq’s weapons programs.
The CIA had the Niger claim removed from at least two speeches before they were given: Bush’s October address on the Iraqi threat, and a speech by U.N. Ambassador John Negroponte.
As the State of the Union address was being written, CIA officials protested over how the alleged uranium connection was being portrayed, so the administration changed it to attribute it to the British, who had made the assertion in a Sept. 24 dossier.
By MSNBC.com’s Alex Johnson with NBC’s Andrea Mitchell.
UM DIA EM GRANDE
Dormir até ao meio-dia, dar uma surfada revigorante em ondas perfeitas e potentes num ambiente amigável e descontraído, dar outra pela blogosfera, escrever uma posta bem disposta e ter uma grande noitada já em vista.
Que mais falta para um dia perfeito?
Que o FC Porto traga os três pontos de Guimarães!!!
sexta-feira, setembro 26, 2003
Edward Said 1935 - 2003
A propósito da morte de Edward Said deixo-vos aqui o artigo Os 25 Anos de "Orientalismo": Uma Janela para o Mundo, no PÚBLICO.
Há nove anos escrevi um posfácio para "Orientalismo" que, ao tentar clarificar aquilo que eu penso ter ou não ter afirmado, sublinhava não apenas as muitas discussões que tinham sido iniciadas desde que o meu livro apareceu em 1978, mas também as formas como um trabalho sobre as representações do "Oriente" se prestou a uma crescente interpretação errada. Que eu me sinta hoje mais irónico do que irritado por causa disso é um sinal de como a idade tem avançado em mim. As mortes recentes dos meus dois principais mentores intelectuais, políticos e pessoais, os escritores e activistas Eqbal Ahmad e Ibrahim Abu-Lughod, trouxe-me tristeza e vazio, bem como resignação e uma certa vontade teimosa de seguir em frente.
No meu livro de memórias "Out of Place" (1999) descrevi os estranhos e contraditórios mundos em que cresci, fornecendo a mim próprio e aos meus leitores um relato detalhado do pano de fundo em que eu penso ter sido formado na Palestina, Egipto e Líbano. Mas esse era um relato muito pessoal que deixou de fora todos os anos do meu envolvimento político que começou depois da guerra israelo-árabe de 1967.
"Orientalismo" é um livro muito ligado às tumultuosas dinâmicas da História contemporânea. A primeira página começa com uma descrição, em 1975, da guerra civil libanesa que terminou em 1990, mas cuja violência e derramamento horroroso de sangue humano continua até hoje. Tivemos o fracasso do processo de paz de Oslo, o início da segunda Intifada e o terrível sofrimento dos palestinianos nas reinvadidas Cisjordânia e Faixa de Gaza. O fenómeno dos bombistas suicidas apareceu com todos os seus odiosos estragos, nenhum deles tão medonho e apocalíptico como os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 e as consequentes guerras contra o Afeganistão e o Iraque.
Enquanto escrevo este texto a ocupação imperial ilegal do Iraque pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha continua. E continuará verdadeiramente a ser algo horroroso de contemplar. Tudo isto faz parte do que é suposto ser um choque de civilizações, implacável, irremediável, inabalável. Ainda assim, penso que não.
Gostaria de poder dizer que a compreensão geral do Médio Oriente, dos árabes e do islão nos Estados Unidos melhorou, mas a verdade é que isso não aconteceu. Por todo o tipo de razões, a situação na Europa é consideravelmente melhor. Nos EUA, o endurecimento das atitudes, o reforço das vil generalização e do cliché triunfalista, a predominância de poder irreflectido aliado ao desprezo simplista pelos dissidentes e pelos "outros" encontrou um correlativo à medida na pilhagem e destruição das bibliotecas e museus do Iraque.
Aquilo que os nossos líderes e os seus lacaios intelectuais parecem ser incapazes de perceber é que a História não pode ser limpa com uma esponja como um quadro negro, limpa para que "nós" aí possamos inscrever o nosso próprio futuro e impor as nossas próprias formas de vida para que estas sejam adoptadas por esses seres inferiores.
É muito comum ouvir altos responsáveis políticos em Washington e não só a falarem em mudar o mapa do Médio Oriente, como se as sociedades antigas e uma miríade dee povos pudessem ser agitados como amendoins num jarro. Mas isto aconteceu muitas vezes com o "Oriente", essa construção semi-mítica que, desde a invasão napoleónica do Egipto em finais do século XVIII, tem sido feita e refeita vezes sem conta. Neste processo, os múltiplos sedimentos de História, que incluem inúmeras histórias e uma variedade impressionante de povos, idiomas, experiências e culturas, todos eles são marginalizados ou ignorados, enterrados nas pilhas de areia e terrenos de tesouros como os fragmentos sem sentido que foram retirados de Bagdad.
Catástrofe intelectual
O meu argumento é que a História é feita por homens e mulheres, tal como pode ser desfeita e reescrita, de modo a que o "nosso" Leste, o "nosso" Oriente se torne de facto "nosso" para possuir e dirigir. E acredito verdadeiramente nos poderes e capacidades dos povos daquela região para continuarem a lutar por aquilo que são e querem vir a ser. Tem havido um ataque tão maciço e calculadamente agressivo sobre sociedades árabes e muçulmanas contemporâneas pelo seu atraso, falta de democracia e negação dos direitos das mulheres, que simplesmente nos esquecemos que noções como modernidade, luzes e democracia não são de modo algum simples e foram construídas sobre conceitos difíceis de definir.
A incrível indiferença dos estéreis colunistas, que falam em nome da política internacional mas que não têm qualquer conhecimento da linguagem que as pessoas reais falam, criou uma paisagem árida pronta para que o poder americano aí construa um modelo de "democracia" de livre mercado.
Não precisamos dos árabes ou persas ou mesmo dos franceses para nos mostrarem como o efeito de dominó da democracia é o que o mundo árabe precisa. Mas há uma diferença entre o conhecimento de outros povos e outros tempos que é o resultado da compreensão, compaixão, estudo cuidadoso e análise feita em seu próprio bem, e, por outro lado, o conhecimento que faz parte de uma campanha global de auto-afirmação. Existe, afinal de contas, uma diferença entre a vontade de compreensão para objectivos de coexistência e alargamento de horizontes e o desejo de dominar com objectivos de controlo.
É certamente uma das catástrofes intelectuais da História que uma guerra imperialista confeccionada por um pequeno grupo não eleito de responsáveis políticos americanos tenha sido empreendida contra uma devastada ditadura do Terceiro Mundo, tendo como fundamento ideológico o domínio mundial, o controlo da segurança e a escassez dos recursos, mas disfarçada na sua verdadeira intenção, acelerada e justificada por orientalistas que traíram a sua vocação de eruditos.
As maiores influências sobre o Pentágono e o Conselho Nacional de Segurança de George W. Bush foram as de homens como Bernard Lewis e Fouad Ajami, peritos no mundo árabe e islâmico que ajudaram os predadores americanos em tão absurdos fenómenos como a mente árabe e o já antigo declínio islâmico que só o poder americano poderia inverter.
Actualmente, nos Estados Unidos as livrarias estão cheias de discursos longos e gastos com títulos gritantes sobre o slão e o terror, o islão exposto, o perigo árabe e a ameaça muçulmana, todos eles escritos por agitadores políticos que divulgam as informações fornecidas a si e a outros por especialistas que, supostamente, conseguiram penetrar o coração desses estranhos povos orientais. A acompanhar tais agitadores estiveram a CNN e a Fox, mais uma miríade de rádios evangélicas e de orientação política de direita, inúmeros tablóides e jornais semi-sérios, todos eles reciclando as mesmas inverificáveis ficções e vastas generalizações para atiçar a "América" contra o demónio estrangeiro. Sem uma noção clara de que esses povos não são como "nós" nem partilham os "nossos" valores - o centro do tradicional dogma orientalista - não teria havido qualquer guerra.
Vindos do mesmo rol de intelectuais profissionais pagos pelos conquistadores holandeses da Malásia e Indonésia, pelos exércitos britânicos que conquistaram a Índia, a Mesopotâmia, o Egipto, a África Ocidental, pelos exércitos franceses da Indochina e do Norte de África, os conselheiros americanos chegaram ao Pentágono e à Casa Branca, usando os mesmos clichés, os mesmos vis estereótipos, as mesmas justificações para o poder e violência (afinal, sem rodeios, o poder é a única linguagem que entendem) neste caso como em anteriores. A estas pessoas juntaram-se agora no Iraque um exército de empreiteiros privados e ansiosos empresários a quem será confiado tudo, desde a redacção dos textos legais e da Constituição à reconstrução da vida política iraquiana e da sua indústria petrolífera.
Todos os impérios, nos seus discursos oficiais, afirmam não ser como os restantes, defendem que as circunstâncias em que se formam são especiais, que a sua única missão é iluminar, civilizar, estabelecer a ordem e democracia e que usam a força apenas como último recurso. Mas, mais triste ainda, há sempre um bando de intelectuais dispostos a dizerem doces palavras sobre o quão benignos ou altruístas são estes impérios.
As vítimas do império
Vinte cinco anos depois da publicação do meu livro, o "Orientalismo" levanta uma vez mais a questão de saber se o imperialismo moderno terminou alguma vez ou continuou no Oriente desde a entrada de Napoleão no Egipto há dois séculos. Foi dito a árabes e muçulmanos que a vitimização e insistência nos saques do império é apenas uma forma de evasão às responsabilidades do presente. Vocês falharam, vocês seguiram o caminho errado, diz o moderno orientalista. Esta é obviamente também uma contribuição de V. S. Naipaul para a Literatura: que as vítimas do império se lamentem enquanto o seu país é destruído. Mas que fraco cálculo da intrusão imperial é este, que deseja tão pouco enfrentar a extensa sucessão de anos ao longo dos quais o império continua a impor-se na vida dos palestinianos ou dos congoleses ou dos argelinos ou dos iraquianos.
Pensemos na linha que começa com Napoleão, continua com o início dos estudos orientais e com o controlo do Norte de África, e prossegue com actos semelhantes no Vietname, no Egipto, na Palestina e, durante todo o século XX, na luta pelo petróleo e pelo controlo estratégico do Golfo [Pérsico], Iraque, Síria, Palestina e Afeganistão.
Então pensemos na ascensão do nacionalismo anticolonial no curto período da independência liberal, a era dos golpes militares, de sublevação, guerra civil, fanatismo religioso, luta irracional e inflexível brutalidade contra o último punhado de "nativos". Cada uma destas fases e períodos gera um conhecimento distorcido sobre as restantes, cada uma produz as suas próprias imagens redutoras, as suas próprias polémicas.
A ideia que defendia no "Orientalismo" era a de usar a crítica humanista para abrir campos de batalha, para introduzir uma sequência mais longa de pensamento e análise que substituam as pequenas explosões de polémica e de fúria que nos impedem de pensar. Chamei o que tento fazer de "humanismo", uma palavra que teimosamente persisto em utilizar apesar da rejeição jocosa deste termo por parte dos sofisticados críticos pós-modernos.
Um humanista isolado
Por humanismo entendo, primeiramente, a tentativa de dissolver os grilhões que nos aprisionam o pensamento, segundo Blake, de modo a que possamos usar a nossa mente, histórica e racionalmente, em função de uma compreensão reflexiva. Além disso, o humanismo assenta num sentido de comunidade com outros intérpretes e com outras sociedades e períodos: assim sendo, não há tal coisa como um humanista isolado. Quer isto dizer que cada domínio está ligado a todos os outros e que tudo o que acontece no mundo não acontece de forma isolada ou sem qualquer influência exterior.
É preciso falar das questões da injustiça e sofrimento num contexto amplamente situado na História, na cultura e na realidade sócio-económica. O nosso papel é o de alargar o campo de discussão. Passei muito tempo da minha vida, durante os últimos 35 anos, defendendo o direito do povo palestiniano à autodeterminação nacional, mas tentei fazê-lo sempre tendo em atenção à realidade do povo judeu e o que este sofreu devido à perseguição e genocídio de que foi alvo. O aspecto primordial é que a luta pela igualdade entre a Palestina e Israel deveria ser orientada em função de um objectivo humano, isto é, a coexistência, e não em função da repressão e rejeição.
Não acidentalmente, indiquei que o Orientalismo e o moderno anti-Semitismo têm raízes comuns. Deste modo, pareceria ser uma necessidade vital dos intelectuais independentes apresentarem alternativas aos modelos simplistas e limitativos, baseados na ideia de uma hostilidade mútua, que têm prevalecido no Médio Oriente e no resto do mundo.
Como humanista cuja área de investigação é a da Literatura, tenho idade suficiente para ter recebido formação no campo da literatura comparada, cujas principais ideias remontam à Alemanha dos finais do século XVIII e início do século XIX. Devo também mencionar a contribuição extremamente criativa de Giambattista Vico, o filósofo e filólogo napolitano, cujas ideias anteciparam as de pensadores alemães como Herder e Wolf, mais tarde seguidos por Goethe, Humboldt, Dilthey, Nietzsche, Gadamer e, finalmente, os grandes filólogos do romance do século XX como Erich Auerbach, Leo Spitzer e Ernst Robert Curtius.
Para os jovens da actual geração a noção de Filologia sugere a ideia de algo incrivelmente antiquado e bafiento, mas a Filologia é, no entanto, a mais básica e criativa das artes interpretativas. O que se torna claro no interesse de Goethe pelo islão em geral, e pelo poeta persa Hafiz em particular, uma paixão insaciável que levou à composição do West-östlicher Diwan e influenciou mais tarde as ideias de Goethe sobre a Weltliteratur, o estudo de todas as literaturas do mundo como um todo sinfónico que pode teoricamente ser apreendido como se tivesse preservado a individualidade de cada trabalho sem perder o todo de vista.
A missão do intérprete
Há uma considerável ironia em percebermos que no mundo globalizado e convergente dos nossos dias, podemos estar a aproximarmo-nos do tipo de standardização e homogeneidade contra as quais as ideias de Goethe eram especificamente formuladas. No ensaio "Filologia da Weltliteratur" que publicou em 1951, no período do pós-guerra e do início da Guerra Fria, Erich Auerbach alertava exactamente para isso.
O seu fantástico livro "Mimesis", publicado em Berna em 1946 mas escrito enquanto Auerbach ensinava línguas do Romance em Istambul durante o período do exílio, deveria ser um testamento à diversidade e ao concretismo da realidade representada na literatura ocidental desde Homer a Virgina Wolf; mas lendo o ensaio de 1951 percebemos que, para Auerbach, o grande livro que escreveu é uma elegia a um período em que as pessoas podiam interpretar textos filologicamente, concretamente, sensatamente e intuitivamente, usando a erudição e um excelente domínio sobre diversas línguas para suportar o tipo de compreensão que Goethe exigia para o seu entendimento da literatura islâmica.
O conhecimento positivo das linguagens e da história era necessário, mas sempre tão suficiente como a recolha mecânica de um conjunto de factos constituiria um método adequado compreender um autor como Dante, por exemplo.
O principal requisito para o género de entendimento de que falavam e tentaram pôr em prática Auerbach e os seus antecessores, é aquele que, simpática e subjectivamente, entra na vida do texto escrito visto a partir da perspectiva do seu tempo e do seu autor (einfühlung). Em vez da alienação e hostilidade com outros tempos e com culturas diferentes, a Filologia aplicada à Weltliteratur envolvia um profundo espírito humanístico cheio de generosidade e, se posso mesmo dizer, hospitalidade.
Desta forma, a mente do intérprete cria dentro de si um espaço para um Outro que lhe é estranho. E é esta criativa abertura de um espaço para trabalhos que, de outro modo, pareceriam alienígenas e distantes, a faceta mais importante da missão do intérprete.
Demonização do inimigo desconhecido
Tudo isto foi obviamente minado e destruído na Alemanha pelo Nacional Socialismo. Depois da guerra, Auerbach nota, tristemente, a standardização das ideias, uma cada vez maior especialização do conhecimento que gradualmente vai restringindo as oportunidades para um trabalho filológico de investigação e de permanente interrogação que ele representara, sendo, ai de mim, ainda mais deprimente o facto de, desde a morte de Auerbach em 1957, tanto a ideia como a prática de uma pesquisa humanística tenha diminuído não só em âmbito mas também em centralidade. Em vez de lerem, no sentido real da palavra, os nossos estudantes de hoje são frequentemente distraídos pelo conhecimento fragmentado disponível na Internet e nos "mass media".
Pior ainda, a educação é ameaçada pelas ortodoxias nacionalistas e religiosas frequentemente disseminadas pelos "mass media", uma vez que estes, sem fornecerem qualquer tipo de contextualização histórica, cobrem sensacionalmente as distantes guerras electrónicas, dando aos espectadores a sensação de uma precisão cirúrgica, mas obscurecendo o terrível sofrimento e destruição causados pela guerra moderna.
Na demonização do inimigo desconhecido, etiquetado de "terrorista" com o objectivo de atiçar e assustar as pessoas, as imagens mediáticas direccionam demasiada atenção que pode ser explorada em tempos de crise e insegurança como os que o pós-11 de Setembro produziu.
Falando simultaneamente como americano e comoárabe, devo pedir ao meu leitor para não subestimar a visão simplificada do mundo formulada por uma relativa mão cheia de elites civis do Pentágono para definir a política americana sobre todo o mundo árabe e islâmico, uma visão na qual o terror, a propaganda da guerra e a mudança unilateral de regime suportada pelo maior orçamento militar da história são as ideias fulcrais debatidas indefinidamente pelos "media" que assumem para si o papel de produzir os chamados "peritos" que validam as linhas gerais propostas pelo governo.
Reflexão, debate, argumentação racional, princípios morais baseados na noção secular de que os seres humanos devem criar a sua própria história foram substituídos por ideias abstractas que celebram o carácter de excepção da cultura americana e ocidental, denegrindo a relevância do contexto e olhando para as outras culturas com desdém.
Talvez pensem que estou a fazer transições demasiadamente abruptas entre a interpretação por um lado e política estrangeira por outro, e que a sociedade tecnológica moderna, que, juntamente com um poder sem precedentes, possui a Internet e caças F-16, deve em última análise ser dirigida por peritos técnicos em política como Donald Rumsfeld ou Richard Perle. No entanto, o que realmente foi perdido é o sentido da densidade e interdependência da vida humana, que não pode ser reduzida a uma fórmula nem varrida como se fosse irrelevante.
Este é um dos lados do debate global. Nos países árabes e muçulmanos a situação é pouco melhor. Como Roula Khalaf defendeu, a região caiu num fácil anti-americanismo que revela um reduzido entendimento do que os Estados Unidos são realmente enquanto sociedade. Devido ao facto de serem relativamente impotentes para influenciar a política norte-americana face a si próprios, os governos dirigem as suas energias para reprimir e manter subjugadas as suas populações, o que gera ressentimento, angústia e desesperadas imprecações que em nada ajudam a iluminar sociedades onde as ideias seculares acerca da história humana e do seu desenvolvimento foram ultrapassadas pelo fracasso e frustração, assim como por um islamismo construído sobre ensinamentos decorados e sobre a obliteração do que é entendido como outras formas competitivas de conhecimento secular.
O desaparecimento gradual da extraordinária tradição da "ijtihad" islâmica, ou interpretação pessoal, tem sido um dos maiores desastres culturais do nosso tempo, resultando na extinção do pensamento crítico e do confronto individual com os problemas do mundo moderno.
Isto não significa que o mundo cultural tenha simplesmente recuado a um beligerante neo-orientalismo, por um lado, ou a um manto de rejeicionismo, por outro. Devido a todas as suas limitações, a cimeira das Nações Unidas, realizada o ano passado em Joanesburgo, revelou de facto uma vasta área comum de preocupação global que sugere ser desejável a emergência de um novo eleitorado colectivo, o que atribui à frequentemente condescendente noção de "novo mundo" uma singular urgência.
Em tudo isto, porém, temos de admitir que possivelmente ninguém conhece a extraordinariamente complexa unidade do nosso mundo globalizado, apesar de ser verdade que o mundo assenta numa interdependência das suas partes que não deixa margem para o isolamento.
O mundo da História
Os terríveis conflitos que agregam as pessoas em nome de falsos conceitos de unidade como "América", "Ocidente" ou "Islão"e inventam identidades colectivas para grande número de indivíduos que são na realidade muito diversos, não podem permanecer tão poderosos como são e devem ser destruídos. Ainda temos ao nosso dispor as capacidades racionais interpretativas que são o legado da educação humanística, não como uma piedade sentimentalista que nos leva de volta aos valores tradicionais ou aos clássicos, mas como uma prática activa do discurso racional secular mundial.
O mundo secular é o mundo da História feito pelos seres humanos. O pensamento crítico não se submete às ordens para integrar as fileiras que marcham contra um ou outro inimigo confirmado. Em vez do conflito manufacturado das civilizações, precisamos concentrar-nos no lento trabalho feito em conjunto por culturas que se imbricam, que partilham e vivem juntas sob formas muito mais interessantes do que qualquer modo de compreensão limitado e não autêntico pode permitir. Mas para esse tipo mais amplo de percepção precisamos de tempo e de um questionamento paciente e céptico, apoiado na crença nas comunidades de interpretação que são difíceis de manter num mundo que exige acção e reacção instantâneas.
O humanismo centra-se nas ideias de individualidade humana e de intuição subjectiva, mais do que em ideias recebidas e autoridade aprovada. Os textos devem ser lidos como textos que são produzidos e vivem no domínio histórico em todos os modos do que eu tenho chamado formas mundiais. Mas isto de maneira nenhuma exclui o poder, pelo contrário tenho tentado mostrar as insinuações, as imbricações do poder até nos estudos mais recônditos.
E, por fim, mais importante, o humanismo é a única e, iria mais longe dizendo, a última resistência de que dispomos contra as práticas desumanas e as injustiças que desfiguram a história humana. Vivemos hoje fascinados pelo enormemente encorajador campo democrático do ciberespaço, aberto a todos os utilizadores de formas impossíveis de serem sonhadas pelas gerações anteriores de tiranos e ortodoxias.
Os protestos a nível mundial antes do início da guerra no Iraque não teriam sido possíveis se não fosse a existência de comunidades alternativas em todo o mundo, esclarecidas por informação alternativa e profundamente conscientes das questões ambientais, dos direitos humanos e dos impulsos não-deterministas que nos ligam uns aos outros neste minúsculo planeta.
Washington e Londres Insistem Que Há Arsenais Proibidos no Iraque
Em declarações à rádio da BBC, Straw defendeu mais uma vez a decisão de Washington e Londres de lançar uma guerra contra o Iraque e disse esperar que as armas de destruição maciça - que foram o principal argumento para essa guerra - ainda sejam encontradas. Admitiu que "tem sido difícil obter provas físicas", mas afirmou que "isso não significa que elas não existam".
Sugestão de argumentação para ser usada por José Manuel Fernandes e Luís Delgado:
O facto de não encontrarem Saddam ou Bin Laden também não quer dizer que estes não existam...
LINKS
A primeira fase dos links do geopolita está concluída. A seguir vou pôr as hiperligações para websites. Se alguém tiver alguma sugestão de links para blogues, pode-me enviar um mail para nunospsousa@yahoo.com.
Entretanto, peço aos visitantes para terem alguma paciência visto que esta página demora algum tempo a abrir completamente.
quinta-feira, setembro 25, 2003
O PROGRESSO CHEGOU!
Já tenho opção para comentários, mais para o final do dia vou começar a pôr alguns links.
O BLOGUITICA-INTERNACIONAL TERMINOU
O Paulo Gorjão acabou com Bloguitica-internacional porque o número de visitantes não justificava a continuação do blogue. Havia de ver o meu sitemeter...
No entanto, vai continuar a fazer (poucos) comentários de política internacional no Bloguitica-nacional.
CONTINAÇÃO DOS PROBLEMAS TÉCNICOS
Para melhor visualizar o site é necessario consultar o weblog com a pasta de favoritos aberta. Se alguém me souber resolver este problema agradecia que me enviasse um mail com a solução.
Obrigado e peço desculpa pelos problemas técnicos.
PILOTOS RECUSAM-SE A ATACAR ALVOS PALESTINIANOS
(Link também referido no T-Zero).
Agora só falta que o Congresso Americano proíba Israel de usar os F-16 para atacar populações civis.
Investigadores Não Encontraram Armas Proibidas no Iraque, Diz BBC
Mais uma notícia sobre as WMD iraquianas. Penso que os investigadores só as encontrarão quando pedirem a ajuda do José Manuel Fernandes...
quarta-feira, setembro 24, 2003
PROBLEMAS TÉCNICOS II
Para melhor visualizar o site é necessario consultar o weblog com a pasta de favoritos aberta. Se alguém me souber resolver este problema agradecia que me enviasse um mail com a solução.
Obrigado e peço desculpa pelos problemas técnicos.
The Balkan Theater of Operations
Artigo da STRATFOR sobre os Balcãs como teatro de operações na guerra ao terrorismo.
Anda não o li atentamente, mas promete. All in all, a cautionary tale about the complexity of geopolitics.
PROBLEMAS TÉCNICOS
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Obrigado e peço desculpa pelos problemas técnicos.
LIBERDADE DE IMPRENSA
Uma das primeiras medidas do Conselho de Governo Iraquiano, presidido por Ahmed Chalabi, procurado em vários países por desvio de fundos, prende-se com a intenção de banir as duas televisões por satélite líderes no mundo árabe de operar no Iraque.
Segundo o porta-voz do Conselho, citado pela AFP e noticiado no Público, esta decisão justifica-se devido à promoção da “violência política, o assassínio de membros do Conselho de Governo, de membros da coligação dos EUA e por difundirem nos seus ecrãs gravações de terroristas” feita nos canais Al-Arabiya e a Al-Jazira.
Para já, os jornalistas destas estações não poderão estar presentes "nas conferências de imprensa oficiais e os correspondentes dos dois canais verão o seu acesso interdito aos ministérios e gabinetes" dos membros do Conselho.
Parece-me uma atitude bastante moderada em relaçãos a estes canais, depois do bombardeamento americano dos escritórios da Al-Jazira em Bagdad e Cabul.
A transmissão de mensagens gravadas de Saddam Hussein e de ameaças contra os membros do próprio órgão estão na base da contestação, para além da política diária de cobertura da situação. Os dois canais, muito vistos no país, transmitem frequentemente imagens dos ataques sofridos pelos soldados americanos e têm abordagens críticas da ocupação militar. E por vezes - como na semana passada com um incidente em Khaldiya que segundo a Al-Arabiya fez oito mortos entre os soldados americanos e de acordo com os EUA apenas dois feridos - insistem em versões contraditórias com as declarações oficiais americanas.
"Tentamos cobrir todos os aspectos da situação no Iraque da forma mais objectiva possível e isso inclui fazer do nosso canal um fórum para todos os membros da sociedade iraquiana, sejam eles oposição, americanos ou o governo", disse à Reuters Abdul Sattar Ellaz, editor de programas da Al-Arabiya.
Enfim, vão ser expulsos apenas por fazerem o seu trabalho…
terça-feira, setembro 23, 2003
PROBLEMAS TÉCNICOS
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Obrigado e peço desculpa pelos problemas técnicos.
UPDATE!!!
(também já não era sem tempo..)
O meu 11 de Setembro é melhor que o teu
Na semana passada, estava a ver na SIC Radical um daqueles programas de entretenimento tipicamente americano. Consistia numa prova de carros onde equipes
de vários países estavam sujeitas a uma série de percursos cheios de obstáculos. Após várias eliminatórias, os dois melhores veículos encontravam-se numa
luta final. Carro contra carro.
De um lado estava a equipe americana, composta por bombeiros, competindo num veículo monstruoso e ostentando uma patriótica bandeira americana, do outro
lado encontrava-se uma equipe chilena...
Finalmente, após tanta discussão acalorada nos blogs e nos jornais, ia-se encontrar o verdadeiro 9/11.
Foi um combate desigual, o mastodôntico carro dos bombeiros cedo se viu manietado pelo ágil e pequeníssimo veículo chileno, tendo sido obrigado a
render-se quase sem dar luta.
Agora só resta saber se a equipe chilena era composta por apoiantes de Allende ou de Pinochet...
Revisionismo:
Pinochet, o Mago das Finanças
Nesta discussão entre os dois 11 de Setembro não faltam as tiradas chico-espertas. Para já vou focar algumas das mais hilariantes justificações para o golpe no Chile e para toda a tortura que se seguiu.
Uma das mais interessantes prende-se com o desenvolvimento económico que o regime de Pinochet trouxe. Neste capítulo, antes da ascensão de Hitler ao poder, a
Alemanha vivia numa situação económica de tal ordem catastrófica que um caixote de notas valia quase zero, sendo que esse valor baixava ainda mais quase de hora a hora. Esta situação era quase da exclusiva responsabilidade dos
Aliados na I Grande Guerra e das terríveis compensações exigidas aos derrotados, particularmente à Alemanha.
A subida de Hitler ao poder trouxe ao país um período de rápido crescimento económico, com o Furher a entrar posteriormente num ciclo de conquistas de país atrás de país para alimentar ainda mais esta caldeira. Espanha também conheceu tempos de desenvolvimento após a Guerra Civil. Daí se pode concluir que o fascismo faz bem à bolsa.
Pinochet, esse Grande Democrata
Outra falácia relaciona-se com o carácter democrático de Pinochet e o seu apoio popular. O Grande General, convicto na sua arrogância que a sua liderança era
incontestada marca um plebiscito ao seu poder, conforme mandava a Constituição de 1980.
Este referendo surge após um período de grande conflito e de grave crise económica, com o desemprego a subir rapidamente, atingindo quase um quarto da
população activa. Além disso, era constante a repressão policial de manifestações exigindo saber onde estavam os desaparecidos, a que nem a Igreja calava a sua voz.
A oposição numa atitude talvez só comparável ao de Humberto Delgado, tendo finalmente acesso aos meios de comunicação e a quinze minutos diários de direito de antena, lança uma campanha sem precedentes. A aposta estava numa imagem positiva, tal como mandam os manuais elementares do Marketing Político. Era um Não positivo, era uma campanha por um futuro melhor. Diariamente, o país parava para assistir aqueles quinze minutos, aquele país diferente... Com uma afluência em massa dos eleitores, tornava-se evidente que o Não tinha ganho as eleições. Foi a partir deste momento que o medo se instalou de novo, que o tempo voltou atrás. O espectro de uma fraude eleitor ia crescendo, com o General a convocar todo o Estado Maior para uma reunião de emergência. É aqui que se dá o desfecho fatal. Um dos homens fortes do poder, ao entrar no palácio juntamente com outros militares, declara a frase que apagaria qualquer esperança por parte de Pinochet num desfecho favorável para o seu lado. “Aparentemente o Não ganhou”, afirma o militar em directo aos microfones de uma rádio, puxando o tapete a Pinochet. Apesar disso, os militares reservaram para si um lugar na nova ordem democrática, tendo-lhes sido atribuído posições vitalícias no Senado, como garantia da sua imunidade, bem como um grande poder de ingerência em assuntos do seu interesse.
11 de Setembro de 2001
Chorei e chorei e continuei a chorar. Chorei durante horas na solidão e conforto do meu sofá enquanto via aquelas imagens que nunca esquecerei.
segunda-feira, setembro 22, 2003
REPOST
Devido a problemas técnicos vou reeditar todas as minhas postas. Para melhor visualizar o site é necessário consultar o weblog com a pasta de favorites aberta. Se alguém me souber resolver este problema agradecia que me enviasse um mail com a possível solução. Obrigado e peço desculpa pelos problemas técnicos.
quinta-feira, setembro 18, 2003
WMD
Sobre as Armas de Destruição em Massa, deixo-vos aqui o link com o discurso proferido por George W. Bush a 7 de Outubro de 2002 e a posterior análise feita por dois elementos do Carnegie Endowment for International Peace.
quarta-feira, setembro 17, 2003
COERÊNCIA
Os EUA vetaram ontem no Conselho de Segurança da ONU uma resolução que exigia que "Israel, a força ocupante, se abstenha de proceder à deportação e cesse qualquer ameaça à segurança do presidente eleito da Autoridade Palestina».
Como exemplo, entre 1972 e 1990, os norte-americanos vetaram 30 resoluções do CS de modo a proteger Israel das críticas dos países da ONU.
Entre 1955 e 1992, foram aprovadas 65 resoluções altamente críticas da política Israelita para com os palestinianos. Quase todas foram ignoradas pelos visados, não tendo sido também tomada qualquer medida para obrigar Israel a cumprir as exigências do CS.
ROAD MAP TO PEACE
É difícil fazer cumprir qualquer plano de paz quando o onûs das cedências pende quase exclusivamente para um dos lados, neste caso para o lado palestiniano.
Israel ignora as preocupações dos demais países da chamada "comunidade internacional", desafiando-os constantemente.
Já aqui falei vários tipos de pressão que podem ser exercidos contra um país. No caso de Israel, ainda se torna mais fácil esta pressão. Sendo o principal receptor da ajuda externa americana, tanto financeira como militar, parece bastante óbvio que a ameaça da suspenção desta ajuda ou até mesmo concretizá-la poderia tornar Israel mais receptivo às preocupações externas.
No caso indonésio, o Congresso americano proibiu qualquer ajuda militar a este país, mas o caso israelita tem contornos bastante diferentes, derivado das preocupações americanas com a perda de votos em eleições (as presidenciais estão à porta) e com um importante lobby israelita que vai tomando conta da administração e dos vários think-tanks ligados ao Pentágono, ao Departamento de Estado e à Casa Branca.
Sobre alguns destes protagonistas, entre eles Richard Perle e Daniel Pipes, escreverei algumas palavras dentro em breve.
terça-feira, setembro 16, 2003
ESQUERDA/DIREITA. HIPOCRISIA/INTERESSES NACIONAIS
Resposta ao NunoP
O JanelaParaoRio depois de ler o meu a minha posta nos comentários do Jaquinzinhos achou que eu era mais uma daquelas pessoas que atiram sempre as culpas para cima do governo português ou de que mantenho uma dualidade de critérios nas minhas críticas. Uma vez que pertenço a uma geração que não se revê na velha dicotomia esquerda versus direita não me vejo obrigado a defender regimes repressivos como o de Fidel ou de Pinochet, velho general que se viu obrigado a alegar insanidade mental para escapar à justiça dos países europeus (pelo seu historial só posso afirmar que o general esteve sempre louco...).
Em relação ao intervencionismo militar:
não sou apologista de soluções deste género, só em casos extremos (e não estou a falar do Iraque). O que eu me estava a referir era a outro tipo de pressões consagradas nas relações internacionais. Não estou a falar de bloqueios económicos que, como já ficou demonstrado, têm muitas vezes efeitos contraproducentes. Falo mais de medidas como: declarações de preocupação e ou até protesto por parte do MNE ou suspensão de ajuda que não esteja directamente ligada com o bem-estar das populações.
O que se verifica em Portugal desde a instauração da democracia é um medo de se alienar os interesses económicos portugueses, quando muitas vezes vamos perdendo terreno para os americanos, os britânicos, os franceses e até os italianos, que têm revelado um pragmatismo muito maior.
Ou o governo assume que o que interessa são os interesses financeiros e assume devidamente essa aposta ou deixa-se de hipocrisias e crítica os desvarios neopotistas de alguns dos países dos PALOP.
Coincidências
Estes dois últimos parágrafos foram escritos ontem e postados nos comentários do Jaquinzinhos. Hoje, na TSF também Miguel Monjardino fazia uma alusão à preocupação demonstrada pelos Estados na defesa, em primeiro lugar, dos seus interesses (económicos, pois claro!), neste caso no Iraque. Em relação a este tema escrevi um pequeno artigo no JN há já algum tempo, que pretendo recuperar em breve e publicá-lo neste espaço, bem como análise dos prinipais actores (países e organizações terroristas ou de Estados (como o Grupo de Xangai)) envolvidos no GRANDE JOGO.
MAIL
Enquanto não tenho a opção para os comentários, deixo aqui o meu mail nunospsousa@yahoo.com para queira fazer qualquer comentário ou esclarecer alguma dúvida.
segunda-feira, setembro 15, 2003
O SACI PERERE QUERIA SER APRENDIZ DE PINOCHET
Este post surge mais como resposta ao Jaquinzinhos do que propriamente de um assunto de geopolítica. Sobreo contexto geopolítico da Guiné-Bissau escreverei em breve.
Para já, este blog ainda está numa fase muito primária, mas nos próximos dias contará com mais novidades.
Em relação ao Saci:
O "Saci Perere da África Ocidental" não era propriamente um democrata. Apesar de ter sido eleito democraticamente, desde cedo revelou tendências ditatoriais e autoritárias, desde o assassinato de Ansumane Mané, à prisão indescriminada de tudo quanto era opositor, à deposição do presidente do TC por não concordar com a expulsão dos líderes religiosos muçulmanos(!), à dissolução do Parlamento, ao encerramento de orgãos de com. soc. à mais leve crítica, a que nem a delegação da RTP Internacional ou o correspondente da Lusa escaparam.
Mas, vedadeiramente revoltante, foi o silêncio do governo português e dos demais países lusófonos perante as contantes diabruras do Saci...
Também do que não é todos os dias que temos um presidente de um país licenciado em filosofia e teologia!